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segunda-feira, 25 de julho de 2011

MONOGRAFIA - DIFERENCIAL HISTÓRICO E CULTURAL

ESSE TRECHO DO TRABALHO RESSALTA A VITALIDADE DA CULTURA NÁUTICA DA BAHIA, E  AUSÊNCIA DE INTERESSE EM PRESERVÁ-LA.



"3.3 DIFERENCIAL HISTÓRICO E CULTURAL



A história da civilização baiana em seus aspectos econômico, cultural e geopolítico, manteve-se constantemente ligada ao mar e à arte naval. O desembarque e a fixação dos colonizadores portugueses, realizado inicialmente em águas de Porto Seguro, posteriormente solidificou-se mais ao Norte com o descobrimento da Baía de Todos os Santos

As excepcionais qualidades marinheiras desse acidente geográfico que iam desde o seu vasto espelho d’água, profundidades adequadas à navegação, regimes de ventos ideais para propulsão a vela e madeira de qualidade apropriada à construção naval, fizeram dessa região até a primeira metade do século XIX, um dos maiores centro de atividade náutica do planeta e o mais importante do Hemisfério Sul. Vale ressaltar que um dos fatores que muito contribui para o desenvolvimento da construção naval na Bahia foi a experiência dos portugueses como grandes construtores de embarcações.

Em praticamente todos os povoados ou cidades localizadas no litoral da Bahia havia um pequeno atracadouro e um ou mais estaleiros que construíam embarcações destinadas a atender o transporte de passageiro e carga entre essas localidades com o porto de Salvador. No século XVII, a Bahia era referência entre os capitães de navios que arribavam o Porto de Salvador em direção ao Oriente, em virtude dos regimes de ventos no Atlântico Sul e as facilidades oferecidas para abastecimentos e reparos das embarcações. O arsenal de marinha localizado em Salvador e denominado Ribeira das Naus lançou ao mar muitos dos maiores navios de guerra e mercantes até meados do século XIX.

Com a transferência da capital da colônia para o Rio de Janeiro no início do século XIX, inicia-se um processo de esvaziamento da florescente indústria naval na Bahia, pelo menos no que diz respeito a grandes embarcações, pois ainda continuamos a construir saveiros e suas variações.

Essa realidade se perpetuou até o início de construções de estradas em profusão nos meados da década de sessenta do século passado, aliada a construção da Ponte do Funil, ligando a Ilha de Itaparica ao continente. Esse processo viabilizou a implantação do sistema ferry boat, responsável pela aceleração do fim de uma densa cultura náutica que se formou em torno do saveiro, uma embarcação típica, que em suas diversas versões, tanto para navegação em águas abrigadas como em mar aberto, desempenhou um importante vetor para a história econômica da Bahia, durante quase cinco séculos (ZACARIAS, 2001).

Seria impossível pensar a civilização do Recôncavo da Bahia e da sua metrópole – a cidade do Salvador – sem refazer o intenso tráfego que recortou seus rios e o destino comum de todos eles – o mar da Bahia e a larga Baía de Todos os Santos. Nessa civilização que, pode-se dizer, floresceu nas águas, teve seu lugar de glória e decadência o personagem principal desse livro: o saveiro. (GRAMINHO, ALMA DOS SAVEIROS, 1996, p. 05).

Nos dias atuais alguns bolsões de construção artesanal de embarcações ainda resistem em pontos do Litoral Baiano, a exemplo de Caixa Prego na Ilha de Itaparica; Região de Valença; Enseada dos Tainheiros no interior da BTS; Baía de Camamu, a terceira em área no Brasil. Antes, estes lugares produziam saveiros para transporte de passageiros e cargas e, hoje, embarcações voltadas ao lazer. Na Bahia, o saveiro armado em vela de içar, o mais significativo da espécie, caminha para extinção. Em setembro de 2000 restavam apenas 26 desses barcos, diante das centenas deles que existiram no passado (ZACARIAS, 2001).

                               Embarcação artesanal do Litoral Baiano
                                   http://saveirodabahia.blogspot.com/              
                                                      
       
Outro cenário onde se verifica perda de valores culturais que formam a identidade de um povo observa-se no processo de extinção da antiga Companhia de Navegação Bahiana - CNB. A Bahiana, como era chamada pelos soteropolitanos e moradores do Recôncavo, desde a segunda metade do século XIX atuava no transporte de passageiros e cargas (figura 5), entre a capital e as localidades do Recôncavo Baiano. Posteriormente, as linhas se expandiram para as cidades do litoral, a exemplo de: Itacaré; Ilhéus; Canavieiras; Porto Seguro, Caravelas, (tabela 1). Num salto maior, a CNB, através de dois navios cargueiros, operou em longo curso, possivelmente entre a segunda metade da década de 50 e primeira metade da década de 60 do século XX, ligando a Capital Baiana a Buenos Aires e outros portos argentinos mais ao sul, levando cacau e outros produtos locais e trazendo, principalmente, trigo (COELHO NETO, 1999, p. 91).


                         

FIGURA 6 - Navio 2 de Julho, logo após chegar da Alemanha, 1938, para
ser incorporado a frota de CNB
  Fonte: Navegação Bahiana, 1939


 
 TABELA 1 – Linhas regulares da Bahiana – Início do Século XX


Linhas regulares da Bahiana – Início do Século XX
Sul da Bahia -Recôncavo
Linha
Km
Linha
Km
Linha
Km
Bahia / Camamú
096
Belmonte/Santa.Cruz
052
Bahia/Cachoeira
089
Bahia / Marahú
130
Santa.Cruz/P. Seguro
022
Bahia/Nazaré
100
Marahú/ R. de Contas
065
P. Seguro/Prado
108
Bahia/S. Amaro
067
R. de Contas/Ilhéus
060
Prado/Alcobaça
026
Bahia/Valença
100
Ilhéus/Una
048
Alcobaça/Caravelas
033
Bahia/Itaparica
022
Una/Canavieiras
054
Caravelas/Viçosa
044
Bahia/M. de Deus
033
Canavieiras/Belmonte
022
Viçosa/Mucuri
035



Fonte: Coelho Neto 1999, p. 91


A Bahiana foi uma das primeiras empresas de navegação organizada no Brasil (Anexo.C), também praticamente pioneira na utilização do vapor como propulsão em navios. No Recôncavo Baiano, os vapores da CNB foram, durante décadas, o meio de transporte mais confiável entre as comunidades litorâneas do Estado. Em diversos pequenos portos espalhados na BTS, gerações de baianos se reuniam à tarde para esperar a chegada dos navios da Bahiana que traziam notícias da Capital da Bahia.

                           

 Figura 5 – Vapor Paraguassú da frota da CNB
Fonte: RELATÓRIO 1939 NAVEGAÇÃO BAHIANA

          
A Companhia Bonfim apareceu em 1847, estabelecendo uma linha entre Salvador e a cidade de Valença. Outra empresa de navegação, a Santa Cruz, surgiu em 1852 para explorar a navegação costeira. Detinha o privilégio do serviço para a faixa compreendida entre Maceió e Caravelas pelo prazo de 20 anos. Segundo Mesquita (1909), em 1853 a fusão das duas companhias resultou na criação da Companhia Bahiana de Navegação. A partir de 1891, a “Bahiana” passou a pertencer ao Lloyd Brasileiro e tentou adotar um modelo de gestão semelhante ao das suas congêneres estrangeiras da navegação de longo curso. (COELHO NETO, 1999, p. 102). [...]A primeira experiência da navegação a vapor no Brasil aconteceu na Bahia ainda no início do século XIX. A embarcação foi construída no estaleiro da Preguiça e equipada com maquinaria importada da Inglaterra. Em 4 de outubro de 1819, deu-se a viagem inaugural em direção a cidade de Cachoeira, através do Rio Paraguaçu. Um ano antes, Dom João VI havia decretado a incorporação de uma companhia de navegação à vapor em portos e rios da Capitania. Deste evento, resultou uma linha regular que ligou as duas cidades até o período das guerras da Independência. (MESQUITA, 1909, apud COELHO NETO, 1999, p.101,102).

Mais um relato histórico, sobre o pioneirismo da navegação a vapor nas águas da BTS é encontrado em trecho do diário do arquiduque Fernando Maximiliano da Áustria, quando em viagem ao Brasil e escalando na cidade de Salvador, em 11 de janeiro de 1860, descreve a viagem que fez a Ilha de Itaparica num pequeno vapor.

                              
     Figura 7 – Vapor Itapagipe após reconstrução
                    Fonte: Navegação Bahiana, 1939:



Já estávamos, há muito tempo, no convés, em roupas as mais esquisitas, com espingardas, facões, embornais, latas para plantas, redes para borboletas, caixas para besouros e provisões para fortalecer o estômago e molhar a garganta, numa expectativa apreensiva, contando os minutos, quando, finalmente, o pequeno vapor “Cachoeiras”, abrindo penosamente caminho em meio à floresta de mastros do Paraguaçu, rodeou o “Elizabeth[1]”. Subimos nos barcos, abarrotando, praticamente, o vapor, que tinha chegado bastante atrasado (no Brasil, onde tanta coisa nasce por acaso, não se tem noção de pontualidade). Logo o convés ficou totalmente repleto de homens e provisões (HASSBURGO, 1982, p.152). [...] Rapidamente singramos a extensa baía. Sentíamo-nos como conquistadores. Era como se acumulássemos vitória sobre vitória, à medida que conquistávamos novas maravilhas. Quanto mais se diluía, na névoa azul, a costa da Bahia[2], com a cidade beijada pelo sol, e com o Bonfim verdejante, tanto mais se divisava a vista total da ilha de Itaparica, ricamente coberta de matas (HASSBURGO, 1982, p.152). [...]Nosso vapor parou na cidade de Itaparica, e nosso grupo comprimiu-se em pequenos barcos, extremamente precários, a fim de alcançar, rapidamente a margem. Cidade – cidadezinha – nem sequer isso; aldeia é o termo exato que designa tal lugar (HASSBURGO, 1982, p.154).

Os dados históricos referentes à CNB são escassos ou praticamente quase não existe nada catalogado a respeito. Durante o processo de extinção de órgãos públicos no Brasil, geralmente, não se tem o cuidado de preservar documentos que registrassem acontecimentos históricos e culturais, deixando assim um vácuo de identidade para as gerações presentes e as futuras. Outro exemplo ilustrativo, foi o Lloyd Brasileiro, a maior Companhia de Navegação do Brasil até meados da década de oitenta do século XX, não tão antiga e pioneira como a CNB, foi extinta, ficando poucas informações documentais sobre suas operações.

No Bairro da Ribeira estava instalada uma completa estrutura para manutenção dos navios da CNB, constando de dique seco, carreira naval e oficinas para manutenção. Também possuía rebocadores próprios, sendo uma das maiores empregadoras da Bahia tanto para pessoal embarcado como para pessoal administrativo. Como foi dito anteriormente, em cada cidade do litoral da Bahia tinha uma agência da Companhia de Navegação Baiana.  


O resumido relato dos aspectos da cultura náutica na Bahia reforça a idéia de que este importante diferencial ,que poderia ser usado para alavancar essa atividade como fonte de emprego e renda, é pouco aproveitado por nós. O resgate dos antigos saveiros e a CNB valoriza-se mais a identidade cultural náutica na Bahia e a luta de seus antepassados para manter vivas as tradições desse povo em um interessante Museu Náutico."


[1] O vapor Elizabeth foi o navio que Maximiliano estava realizando sua viagem.
[2] Maximiliano se refere a Salvador como a cidade da Bahia, pois era assim que ela era chamada nesta época.
  

JOSEMAR E MARGARIDA

Um comentário:

  1. JORBAN LOPES - SERÁ QUE NÃO EXISTE AÍ EM ALGUNS ARQUIVOS DA COMPANHIA DE NAVEGAÇÃO BAINA DOS NAVIOS - CANAVIEIRAS, MASCOTE, JOÃO DAS BOTAS, CACHOEIRA E NAZARÉ? E DAS LANCHAS SÃO PEDRO, ANUNCIADA, FLOR DE LAMAR E EL' REY? TENHO VONTADE DE REVER PARA MATAR A SAUDADE DAQUELES TEMPOS SE TIVEREM E NÃO FOR IMPOSSÍVEL LANCEM NA PARTE DO COMPUTADOR IMAGENS

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